Moro no centro de Munique, perto dos pontos turísticos. Às vezes preciso ir numa loja que fica bem no miolo da Marienplatz, e só de passar ali, no meio daquela multidão, meu corpo fica tenso. Mesmo indo o mais rápido que dá, olhando só para a loja e voltando para casa, eu chego exausta, no corpo e na cabeça.
A maioria das pessoas que eu conheço, quando chega em casa assim, senta, põe as pernas para cima, deita, liga alguma coisa para assistir. O meu descanso é outro. Eu abro o armário da lavanderia e organizo os produtos de limpeza em fileirinhas, separados por tipo. Ou tiro todas as bolsas do guarda-roupa, limpo uma por uma e separo por cor e por tamanho. Ou pego os óculos de sol e lavo um por um, lente por lente, antes de guardar tudo de novo.

Eu achava que era procrastinação
Com os meus hobbies é igual. Eu amo montar quebra-cabeça, e a mesa que eu uso tem várias gavetas. Quando escolho um novo, despejo tudo na mesa e começo a separar as peças por tipo, cada tipo numa gaveta, e isso me dá tanto prazer quanto montar. Na colagem eu passo um tempo enorme recortando as figuras e organizando os stickers antes de colar qualquer coisa, e com as miçangas acontece a mesma coisa.

Só que muitas vezes eu organizo tudo e não volto para fazer. Por muito tempo eu me vi como procrastinadora, aquela que arruma tudo para fazer e no fim não faz.
O que uma amiga me disse
Um dia eu contei isso para as minhas amigas do Instagram, a lista de melhores amigos. Uma delas me respondeu que isso é muito comum, porque organizar e catalogar é uma forma de se autorregular, e por isso dá tanto prazer.
Foi um “uau”. Fez sentido para muita coisa na minha vida, e eu comecei a prestar atenção em quando eu faço isso. Olhando para trás, percebi que está sempre ligado: a vontade de organizar aparece depois de alguma coisa que me esgotou.
Quando organizar vira o projeto inteiro
Quando decidi voltar com o canal, passei todos os dias registrando a minha vida. E a segunda coisa que eu mais fiz, depois de registrar, foi catalogar. Os vídeos estão separados por dia, dentro da pasta do mês, dentro da pasta do ano, e cada um tem as suas etiquetas. Se você buscar “cabelo” no meu computador, encontra tudo o que eu gravei sobre cabelo de janeiro a setembro.

Ficou tão completo que, na minha cabeça, o canal estava feito. Só que nada tinha ido ao ar. Estava tudo guardadinho no HD.
O que eu faço com isso hoje
A gente nem sempre percebe o que está sentindo, mas o corpo sente. Às vezes a pessoa passa a querer organizar produto de limpeza toda semana e não entende por quê.
Hoje, quando me pego arrumando o armário da lavanderia de novo, eu já sei que alguma coisa me cansou. Continuo organizando, porque me faz bem. Só parei de chamar isso de procrastinação.
O álbum dos meus recortes favoritos
Depois que eu entendi que não era procrastinação, que organizar era o meu corpo se autorregulando de um jeito saudável, até a hora de recortar para a colagem ficou mais tranquila. E veio uma ideia: peguei um álbum de fotos e guardei nele os meus recortes favoritos, os pedaços de papel de que eu mais gosto. A cada duas páginas eles mudam de cor.



O álbum foi um jeito ainda mais claro de assumir para mim mesma que eu gosto daquele recorte e que não preciso usar ele numa colagem. Pode ser que sim, pode ser que não, e está tudo bem.
O curioso é que, sem essa obrigação, já me peguei folheando as páginas arrumadas e pensando em fazer uma colagem com aqueles recortes todos juntos, porque ficaram lindos assim. E a cada dia eu percebo mais um pedaço da minha vida mudando com esse jeito novo de olhar para isso.
Contei essa história inteira no vídeo “O lugar pra onde eu tento voltar não existe mais”:
E você, o que você organiza quando chega cansada?